por Patricia Pamplona | Folhapress

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) passou a integrar uma lista de pouco prestÃgio: a galeria de "predadores da imprensa livre" elaborada pela ONG Repórteres Sem Fronteiras com 37 chefes de Estado.
O lÃder brasileiro é um dos 17 novos integrantes da compilação, que traz pela primeira vez duas mulheres, Sheikh Hasina, de Bangladesh, e Carrie Lam, de Hong Kong, e um lÃder da União Europeia, o húngaro Viktor Orbán. A edição anterior da lista havia sido publicada em 2016.
Na ficha de Bolsonaro, a organização descreve o que chamou de "método predatório" --insultos, humilhação e ameaças vulgares--, os alvos preferidos --jornalistas mulheres, analistas polÃticos e a Rede Globo-- e a caracterÃstica do seu discurso oficial --vulgaridades. O presidente tomou posse em 1º de janeiro de 2019, e a entidade afirma que ele é um "predador" desde que assumiu o cargo.
A ONG traz ainda alguns trechos de falas de Bolsonaro, como quando disse a apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada, em 6 janeiro, que a imprensa "não é nem lixo, porque lixo é reciclável". No mesmo dia, também afirmou: "Chefe, o Brasil está quebrado, e eu não consigo fazer nada. Queria mexer na tabela do Imposto de Renda, teve esse vÃrus, potencializado por essa mÃdia que nós temos. Essa mÃdia sem caráter".
Outro destaque foi a vez em que o presidente usou palavrões para rebater crÃticas sobre o gasto de R$ 1,8 bilhão do governo federal em alimentos e bebidas em 2020. "Vai para puta que o pariu. Imprensa de merda essa daÃ. É para enfiar no rabo de vocês aÃ, vocês não, vocês da imprensa essa lata de leite condensado", disse Bolsonaro, em 27 de janeiro, em vÃdeo que circulou nas redes sociais.
Os ataques a jornalistas e interrupções abruptas de entrevistas devido a perguntas incômodas vêm desde o inÃcio do mandato. Mais recentemente, o presidente xingou de idiota uma repórter de uma afiliada do SBT e mandou outra, dessa vez de uma afiliada da TV Globo, calar a boca.
Ao lado de Bolsonaro, há outros 36 lÃderes com diferentes táticas, como Daniel Ortega, da Nicarágua. A ONG afirma que ele, na liderança do paÃs desde 2007, tornou-se predatório em novembro de 2016, desde sua eleição para um terceiro mandato consecutivo. O principal método empregado pelo ditador é o sufocamento econômico e a censura judicial, e os alvos, a famÃlia Chamorro e a mÃdia privada.
Dois integrantes da famÃlia, inclusive, estão entre os seis candidatos de oposição detidos no último mês no paÃs. O primeiro foi a jornalista Cristiana Chamorro, em 2 de junho, que agora segue em prisão domiciliar. Seu primo, o economista Juan Sebastián Chamorro, também foi preso.
Já o discurso é classificado de paranoico e exagerado, com destaque à fala de maio de 2020, direcionada à mÃdia americana e costarriquenha: "Terrorismo de desinformação, dirigido pelos EUA e tomado pelo valor de face pela mÃdia de muitos paÃses, especialmente a Costa Rica, é brutal, criminoso e xenófobo."
Outro latino-americano a figurar na galeria de predadores com caracterÃsticas parecidas à s de Ortega é o ditador Nicolás Maduro, da Venezuela. Seus métodos listados são a censura e a estrangulação econômica deliberadamente orquestrada, que têm como alvo a mÃdia privada e o jornal El Nacional --que neste ano teve o prédio confiscado pelo regime e foi condenado a pagar indenização milionária.
A descrição de seu discurso oficial também não difere muito: difamação paranoica. O destaque mais recente vai para um trecho de uma fala de fevereiro de 2019. "Muito da guerra da mÃdia à qual a Venezuela está sujeita é desenhada para garantir que ninguém chegue perto da Venezuela, que ninguém venha investir, apesar de a Venezuela ser o melhor paÃs do mundo para investir."
No rol de ditadores também estão nomes como Aleksandr Lukachenko (Belarus) e Kim Jong-un (Coreia do Norte). Entre as grandes potências mundiais figuram Vladimir Putin (Rússia) e Xi Jinping (China).
O russo é tido como predador desde que assumiu o cargo em 2000 --de lá para cá, foram quatro mandatos presidenciais, além do perÃodo como primeiro-ministro de Dmitri Medvedev. Putin usa o método do nacionalismo autoritário contra seu alvo principal, a mÃdia independente, e a ONG destaca ao menos oito jornalistas russos que estão detidos atualmente e um que morreu na prisão em 2020 por falta de atendimento médico, Aleksandr Tolmashev.
O discurso oficial do presidente russo é classificado como "hipocrisia descarada", e a Repórteres Sem Fronteiras lembra uma fala sua durante o Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, em junho deste ano. "Temos tantos canais de notÃcias, de internet, temos tantas opiniões diferentes e há tantas opiniões crÃticas na mÃdia, sobre as autoridades (e sobre mim). Eu não acho que os seus paÃses tenham isso, jornalistas que critiquem o governo tão duramente."
O lÃder do paÃs asiático, por sua vez, adota como método predatório o que a ONG chamou de "vazio de repressão". "A mÃdia estatal deve não apenas seguir a liderança do Partido [Comunista Chinês], mas também 'refletir a vontade do partido, resguardar sua autoridade e sua união'", afirma a entidade. "Sob Xi, o assédio a correspondentes internacionais e suas fontes também alcançou novas altas."
O alvo do dirigente é simples: aqueles que saiam da narrativa. E seu discurso oficial é classificado de doutrinação paternalista, expressada em uma fala de fevereiro de 2016, em referência aos jornalistas da CCTV, da agência Xinhua e do jornal People's Daily, todos veÃculos estatais. "Eles precisam amar o partido, proteger o partido e se alinhar estreitamente à liderança do partido em pensamento, polÃtica e ação."